"E a minha procura ficará sendo minha palavra."
(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

FRANS KRAJCBERG


UM HOMEM, SUA ARTE, UMA LUTA, SUA MISSÃO
Simone Mattos


“Eu transformo cinzas em obras de arte, eu dou vida ao que já morreu... Gostaria de tocar as cinzas de gente, meus familiares, e trazê-los de volta. Como isso eu não posso... faço meu trabalho, dou vida a pedaços de madeira queimada... eu faço o que tenho que fazer.”

Frans Krajcberg explicou assim a sua arte, a sua expressão, a sua forma de vida. Justificou-se, dessa forma, quando foi provocado por um jornalista, em entrevista coletiva: “O senhor não se sente frustrado por ser um artista plástico de enorme sucesso e não ter conseguido, como ambientalista, evitar as queimadas e o desmatamento?”

Krajcberg nasceu em 1921, na Polônia, e viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial, quando sua família foi dizimada em campos de concentração. Após a guerra dedicou-se, integralmente, à arte. Veio para o Brasil, em 1947, e aqui presenciou as queimadas de florestas inteiras no Norte do Paraná e, posteriormente, no Mato Grosso.

É a história de um homem que não trabalha com a morte, mas com a ressurreição, com o renascimento de si mesmo através da sua obra. Um homem que, colocado tantas vezes diante da morte, escolheu defender a vida. E com sua atividade transformou em protesto cada um de seus gestos.

Cada um de nós tem uma história e não há como fugir dela, é um esforço vão, que só reforça a dor. É preciso que encontremos em nossas histórias motivo de orgulho e que possamos assumir as dores que nos cabem, para darmos sentido ao inexplicável. Não é possível apagarmos os fatos marcantes e tristes de nossas histórias pessoais, mas podemos conseguir olhá-los alterando perspectivas.

Seja através das artes plásticas, da música, do cinema, do trabalho voluntário, dos textos, dos esportes, ou de qualquer outra forma de expressão utilizada para repensar os dramáticos momentos da vida, voltar a sorrir é uma grande prova de que o distanciamento se deu. Poder rir da própria história, embora o fato permaneça, é a prova de que suas lembranças já não doem como antes.

A imagem deste homem sorrindo é uma benção, uma esperança. Porque não se trata de passar a vida fazendo esculturas, mas de procurar formas para o grito que ele não consegue segurar (nem deveria). Para Frans Krajcberg a questão hoje é: “Como fazer gritar uma escultura como se fosse sua própria voz.”

Em nome da preservação do ser humano sensível e saudável que há em cada um de nós, não podemos negar a nossa história, nem fugir dela, mas devemos incluir o que dói: sentir, viver, reconhecer, elaborar, suportar e superar, transformando cinzas em arte.

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