"E a minha procura ficará sendo minha palavra."
(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 22 de abril de 2014

Leituras - O Globo

SALA DE AULA - LEITURAS
PROJETO MINHA JANGADA VAI SAIR


É muito comum ouvirmos que a praia é um espaço democrático de convivência, onde a diversidade cultural e social dividem o mesmo espaço em harmonia. “A praia é de todos e para todos”.  Será? 
Não é bem isso que revela o estudo feito pela antropóloga brasileira Julia O'Donnel. 
Para entendermos melhor o ponto de vista da antropóloga e refletirmos sobre a democracia social e racial brasileira,  lemos, em sala de aula, a entrevista que Julia concedeu ao jornal O Globo.

O GLOBO

 "Praia democrática é mito."
Julia O’Donnel

 
A pesquisadora na Praia de Botafogo: “A notícia de que vão revistar ônibus vindos da Zona Norte caberia nos jornais de 1922”
Foto: Camilla Maia / Agência O Globo

RIO — Assim que se mudou para o Rio, em 2004, e começou a frequentar as praias cariocas, a antropóloga paulistana Julia O’Donnel se surpreendeu com uma pergunta que ouvia com frequência:
— Em que posto da praia você vai?
Para ela, a escolha dependia tão somente do fato de haver espaço livre ou das condições do mar em determinado trecho de areia. Começou a se interessar pelo tema, conversar com as pessoas, e tentar entender por que a praia, apesar de ser um trecho restrito, é tão dividida entre si. Levou a curiosidade para o doutorado que faria na UFRJ e a tese virou o livro “A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro”, lançado em abril pela editora Zahar.(...)

Como se deu a apropriação das praias pela população?
Na virada do século XIX para o XX, só se ia à praia por razões medicinais, ninguém ia à praia por prazer. Foi na Europa e nos Estados Unidos que começou a se disseminar o hábito de usar a praia como lazer, mas isso não chegava ao Brasil. As revistas elegantes da época, como a “Revista da Semana”, faziam verdadeiras campanhas para convencer a população carioca a usar as praias. No mundo inteiro, diziam que quem era civilizado ia à praia, que era elegante ir à praia. Chamo essa campanha na minha tese de “projeto praiano-civilizatório”, em que a praia deveria ser ocupada, sim, mas dentro de um modelo de “elegância e civilização”, como eles diziam. Essa campanha começa a surtir efeito a partir da década de 1920. As praias começam a encher, e isso acompanha o boom demográfico de Copacabana, a partir da década de 1940, quando o bairro começou a ser associado à nova elite do Rio. Esse primeiro momento de ocupação da praia, portanto, não é democrático. A praia era um espaço exclusivo das elites. Nem ônibus entrava ali ainda.
Quando a praia se tornou mais democrática?
No final da década de 1920, começam a chegar a Copacabana as “taiobas", que eram os bondes de segunda classe que permitiam que os trabalhadores usassem trajes de banho. Mas, dentro da lógica das elites, começou a incomodar. O que estava acontecendo? A elite havia propagandeado um estilo de vida praiano, que não era só usar a praia, claro, mas era também ter um corpo moldado, bronzeado, elegante. A Coco Chanel apareceu nas revistas bronzeada e isso virou moda. E agora todos tinham de lidar com as praias lotadas de trabalhadores. De tanto alardear a campanha, o desejo de ter acesso ao mundo elegante à beira-mar passa também a ser a vontade de diferentes camadas sociais. E aí, no início da década de 1930, começam a aparecer textos muitíssimo inflamados nos jornais reclamando dessa suposta “invasão”.
É no início da década de 1930 que a elite começa a recobrar a tal “exclusividade”?
Sim. Começam a se referir às pessoas até como “animais”. (Lê um trecho do jornal “Beira-Mar”, de 1929, que usa em sua pesquisa: “esse referver de criaturas, bem ou mal vestidas, limpas ou sujas, de todas as cores ou nacionalidades afeia os balneários, que se assemelham a praias habitadas de focas, não a praias vaidosamente chamadas de elegantes”, ou: “Não somos dos que entendem fazer de Copacabana um lugar exclusivo dos ricos e dos estetas, o que defendemos é a ordem e a beleza social das nossas praias. Sejamos progressistas, mas separando o joio do trigo”). É a ideia de que a democracia não é compatível com a elegância.
A praia é um território democrático?
O acesso à praia é democrático, mas a gestão do espaço não é. Essa tentativa recorrente de controlar o que pode e o que não pode, desde o primeiro “choque de ordem”, em 1917, e que regulava o tamanho dos maiôs ou o horário permitido para tomar banho, é uma tentativa de moralização da praia usando a polícia como agente. É interessante: ao mesmo tempo em que a praia é vendida como um espaço democrático, há uma gestão moral sobre esta aparente democracia, que marca nossa estrutura social, que é profundamente estratificada.
O conceito de praia democrática, então, é um mito?
Sim. É um mito. Um exemplo é a chegada do metrô ao Arpoador, que provocou aquela chiadeira da população, dizendo que ia virar “lugar de favelado”. E isso gerou, de fato, um deslocamento: há uma população segmentada na praia que é majoritariamente negra. O que no nosso país quer dizer majoritariamente pobre, por nossas peculiaridades históricas. Não existe a mistura. Se um grupo de meninos negros chega ao Posto 10 e começa a fazer uma festa, no dia seguinte as pessoas vão se mudar para o Posto 11. É fato.
Há alguma mudança no discurso do início do século para cá?
Nenhuma. É muito este discurso, ainda, do “nós” e “eles”. Um sintoma desse incômodo foi o surgimento de uma praia “exclusiva” no ano passado. Outro exemplo: moro em São Conrado e me espantei com a mobilização dos moradores do bairro contra um conjunto habitacional que seria construído perto da Rocinha, alegando “que ia desvalorizar o bairro”. Ora, a Rocinha está lá muito antes desses moradores de São Conrado, e o discurso é o mesmo que encontro nos jornais do início do século passado, uma fala de faxina, de xenofobia. Parte de um pressuposto que o bairro tem donos e que eles é que decidem o que pode ou não ser construído ali. E ainda há essa ideia de que pobres desvalorizam o bairro. Por isso essa divisão de turmas em postos me chamou a atenção quando cheguei. A praia é um ambiente juridicamente democrático, mas não como prática social. Acho muito perigosa essa mistificação da praia como ambiente de harmonia social.
Há diferença dos primeiros “choques de ordem” para o controle atual?
A presença da polícia nas praias também é uma questão interessante. É uma longa relação da praia carioca com a polícia. A notícia de que vão revistar ônibus vindos da Zona Norte, por exemplo, caberia perfeitamente nos jornais que pesquisei em 1922. É a “taioba”. Os suburbanos podem ir à praia? Podem, mas são malvistos, maltratados. Tem esse primeiro “choque de ordem”, de 1917, que era mais de controle dos costumes, mas já gerava prisão. Depois, há algumas tentativas de moralização, com Getúlio Vargas, e a presença ostensiva da polícia na orla a partir dos anos 90, com os arrastões, até o choque de ordem mais recente, regulando as barracas, o queijo coalho, o frescobol.
O que mais chamou sua atenção nessa última onda de assaltos, que provocou imagens assustadoras de revolta dos frequentadores?
É claro que a violência tem de ser reprimida, evidente, não é para haver assaltos na praia, mas não dá para comparar com os arrastões dos anos 90. Me assustou a naturalização do preconceito nas redes sociais, como a fala de que “é um absurdo ter ônibus para o Alemão de 15 em 15 minutos”. Um pânico de perder a exclusividade da praia. E é interessante que isso aconteça justamente num momento em que há todo um discurso de retomada da cidade pelas UPPs. O problema é o uso moral do discurso que se faz em torno desses acontecimentos. Não é “vamos investigar o que provocou o episódio”, mas reprimir impedindo que determinadas pessoas tenham acesso. Esse episódio mobilizou discursos, atitudes e medos que estão na praia todos os dias, só não são ditos.



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